Joseph van Lerius (1823-1876): Young Girl Wearing a Traditional Winter Dress Worn in the Province of Dalarna, Sweden (Jeune fille de la paroisse de Rattvik dans Dalarne (les vallées), Suède), [detail], 1862, oil on canvas, 114 x 77.5 cm, private collection, source: bonhams.com.

Joseph van Lerius (1823-1876): Young Girl Wearing a Traditional Winter Dress Worn in the Province of Dalarna, Sweden (Jeune fille de la paroisse de Rattvik dans Dalarne (les vallées), Suède), [detail], 1862, oil on canvas, 114 x 77.5 cm, private collection, source: bonhams.com.

Lúmen

-  Carlos Frederico Pereira da Silva Gama  


Meus versos no silêncio de revoltas
Dancei em transição pelos meus rastros
Medo das ninfas me amarrou ao mastro
Calando para sempre suas polcas

E o ingênuo caos era em quase tudo
Melodia de invisível conceito
Elos de fagulhas insatisfeitas
Dizem adeus, acenos de veludo

Interno meus suaves inexatos
Na quase minha eterna ebulição
A ponto do que é meu não despertar

Nas velas queimadas do não findar
Semeio cotovelos, erosão
Da natureza o dizer é retrato

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

[…]

Leminski

Labor as a Tulip

-  Karen Volkman

Labor as a tulip
arrays its flame, nu
form, as the bulb-star,
interred, divines its ore

surging the gulf
rooting it into
appalled memento
pulsing will.

Leaf-blades score the heap.
Other wounds—penetralia—
other worlds, cries, far.
Filaments, simples

emblazoning the rei,
rebus of grief.
Unslumbering terra
premising her kill.

regressar à casa

-   gil t. sousa


regressar à casa
despir o véu da rua
subir os outros

degrau a degrau
deixá-los
no cimo dos dias

ali
imóveis, pintados
sem doerem

e ir à procura das palavras
das fiéis palavras
que nos esperam

que nos esperaram sempre
com um vinho forte na mão
uma droga

ou um sonho
ou apenas
um sonho

ou então um cavalo
um louco cavalo
uma máquina iluminada

de fugir
de ir
pelo gume mais aceso das montanhas

e voltar
pela maré serena
dos rios

estereofonia

-  Marília Garcia

nunca falei tão sério,
disse e olhei pra cima: seu rosto no
meio das gotas o guarda-chuva
preto como uma moldura redonda e você parado
cantando virado para o vidro do carro
sem ouvir mais nada
e a voz
            e a voz
                          e  a voz cantando no meio da chuva
não pó-sso
mais
virado para o vidro do carro
isso podia ser você, mas o caminho mais rápido
de um ponto a outro, ele diz.
e eu  olhei pra cima:
pierre, arrependido, conta que
perto dali uma mulher entrou no
bar. ela tinha o seu nome.
_____: no, no es verdad.
LA CHICA: você estava lá?
_____: ela se chamava doris salcedo.
podia ter vindo de outro lugar, olhando pra longe,
os cílios partidos,
     e a voz cantando no meio da chuva
mas o caminho mais rápido, me diz, e
eu olho pra cima e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva. tem um pingo tornando malva
mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor que lembro era o
chumbo daquela vez
                                   e eu olho pra cima você descia
as escadas,
no último degrau já sabe
– cada curva contém 15 passos. ou será só um poema
essa viagem muda em ziguezague atravessando
asfalto, algarismos de velocidade
e raios de esquecimento?
sendo assim seu poema tem 15 passos, conta os metros
enquanto vai dizendo o poema caminhando mas
daquele dia vejo só o chumbo e a voz
no vidro do carro.
depois levanto um braço o guarda-chuva preto
moldura para descongelar cada um dos 24 degraus
para descongelar a ordem do verso seguinte.
panorâmica, golpe e locutor:
– você vai sempre pelo som?
– que som?
Nature forms us for ourselves, not for others; to be, not to seem.

Anaïs Nin