(Escre) ver-me

- Mia Couto

nunca escrevi
sou apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai mata

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha

Paulo Leminski 

♪ Planet Earth is blue and there’s nothing I can do. Here am I sitting in my tin can far above the Moon

It doesn’t have to be
the blue iris, it could be
weeds in a vacant lot, or a few
small stones; just
pay attention, then patch

a few words together and don’t try
to make them elaborate, this isn’t
a contest but the doorway

into thanks, and a silence in which
another voice may speak.

Thirst, by Mary Oliver.

História de Cão

- Mário Cesariny


eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

The purpose of poetry is to remind us how difficult it is to remain just one person, for our house is open, there are no keys in the doors, and invisible guests come in and out at will.

Czesław Miłosz